7 de abril de 2016

se o caso é chorar

o efêmero não foi feito pra mim.

tudo bem que a gente vive em 2016, as coisas acontecem com uma rapidez quase inacreditável e a fluidez da internet tomou conta dos acontecimentos da vida da gente. os dias correm, você acorda pra ir trabalhar e do nada já tá no trânsito de volta pra casa. ontem tomei banho de ervas para receber o ano que se iniciava e já tô pensando no que vou fazer no natal. tá, tudo bem que o mundo hoje em dia é assim,  mas olha, esse negócio de efemeridade definitivamente não foi feito pra mim.  quer dizer, eu acho. se bem que "definitivamente" e "eu acho" são meio antagônicos. mas que não é?

como boa canceriana - sempre atribuo essa sensibilidade aflorada ao meu signo, até o dia em que compreender de fato o que é isso - tenho uma espécie de dom de caçar caraminholas dentro da cabeça. tudo é motivo: trânsito parado, cigarro no meio do expediente, passeio com cachorro. já vi uns memes na internet e percebi que não é só comigo que isso acontece (ufa!), mas o que importa é essa capacidade maluca que minha mente ansiosa tem de me levar a universos absurdos em questão de segundos. às vezes vou pra frente, às vezes vou pra trás.

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penso em você todo dia. é sério, todo santo dia você me vem à cabeça em algum momento. sabe, quando eu volto do trabalho, passo por uma rua perto da sua casa. é só perto e eu nem sei onde você mora direito. mas passo de ônibus e fico te procurando, como se fosse possível  te ver andando de volta pra casa numa dessas passagens. como se algo fosse acontecer caso eu te visse. mas eu te procuro. todos os dias. me diz se tem coisa mais idiota do que isso! tem meses que você sumiu e me mandou pastar, mas ainda fico rindo sozinha de memes na internet e penso que você riria junto. queria te mandar um oi, ouvir tua voz, não lembro mais como ela é. achei uma foto sua no meu celular. era a única lembrança que tinha, de quando você cortou o bigode e ficou parecido com o wagner moura em "narcos", lembra? instantes depois me roubaram o telefone. me roubaram a única coisa que me sobrou de você. agora tenho que ficar procurando evidências de você em mim. ainda me resta tame impala, que a gente ouviu junto por uns bons meses. mas nem isso tá adiantando. você tá escorrendo pelo ralo, virou areia na minha mão, o tempo tá te levando. olha, esse negócio de efemeridade definitivamente não foi feito pra mim.
quer dizer, eu acho.

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me assusto com a quantidade de pensamentos que passeiam pela minha cabeça. de manhã, quero morrer. é certo que os piores desejos me ocorrem pela manhã. o desapego do que deveria ser cuidado, a nostalgia do que não existe, a vontade de viajar e não poder, a saudade da casa que não é mais minha, a ânsia pelo colo que nunca tive. tomo café pra acordar.

de tarde me acalmo. quero sombra. a sobriedade da rotina. a certeza de voltar pra casa, a casa que é minha. o sol caindo deixa o coração bater mais devagar. a música muda. a dor virou felicidade. penso no futuro, esqueço o passado. hora de fazer piada com a vida comum. o clima é ameno e a alma também.

à noite escureço.a euforia do luar toma conta do meu coração. quero sair. beber.canto alto. logo passa. quero deitar. colo de mãe. colo de namorado. colo de amiga. não tem nada mais valioso do que o aconchego do cheiro de ovo frito. a vida dá uma reviravolta. de dento de casa, sinto falta de casa, a casa que não é minha. saudade do que não existiu. ansiedade pelo que não virá. amanhã será um novo dia, um dia melhor. mentira. olha, esse negócio de efemeridade definitivamente não foi feito pra mim.
quer dizer, eu acho.

3 de dezembro de 2015

ontem eu matei um leão


Ontem eu matei um leão.
Há dias difíceis para todos, em qualquer lugar do mundo. Há quem diga que a culpa é do inferno astral, do universo conspirando contra a gente, há quem jogue essa responsa pra gente, como aquelas pessoas que dizem que tudo está sob a perspectiva do olhar. Não do olhar,  mas do compreender o mundo, acho que é o pessoal da Gestalt que defende isso aí. Se você acorda de mau humor, achando que tudo está ruim, então o trânsito trava, chove e você ta sem guarda-chuva, e por aí vai. E o contrário também, se você acorda pensando que tudo vai dar certo, a probabilidade disso acontecer aumenta significativamente. Eu sou dessas que acreditam nisso.

Mas o que acontece é que esses pequenos problemas do dia a dia são o que realmente enfraquecem a gente. Tenho pensado muito nisso e cheguei à conclusão que nem todo mundo percebe que o grande desafio de morar numa “cidade grande” (aspas se fazem necessárias aqui) são os pequenos desafios diários que aparecem na nossa frente.

Ontem tive que andar cerca de 15 quadras. Cheguei na avenida onde deveria pegar o ônibus, mas estava congestionada. O motivo? Adolescentes haviam fechado um cruzamento, se manifestando contra uma maracutaia das baratas impostas pelo governo estadual para acabar ainda mais com o ensino público, que os próprios governantes chamam de “reorganização da educação no Estado de São Paulo”. Uma imbecilidade sem tamanho e sem respeito algum por aquelas crianças. Sim, crianças se organizam em movimento na luta pelos seus direitos. A resposta a isso foi uma tropa do choque violenta, que atirava bombas de gás naqueles estudantes injustiçados. A coragem e o nível de seriedade e organização dessa molecada é admirável e merece muito, muito respeito. Bem, sem querer, saindo do trabalho, eu estava la no meio, cercada por estudantes aos berros, policiais prontos para a guerra e jornalistas com suas câmeras fotográficas curiosas. E eu. Paraense, branca, de classe média e estudante de faculdade particular. Primeiro baque.

Resolvi apressar o passo, eu ainda tinha um longo caminho pela frente. Parei para imprimir e encadernar meu trabalho de conclusão de curso numa papelaria. De repente, escuto gritos e barulhos de bombas. Gentilmente, o dono fechou as portas e disse “moça, fique aqui dentro”. Optei pela minha segurança e fiquei escutando vozes que gritavam “filho da puta! é só uma criança!”; “seu filho estuda em escola pública, seu animal”, enquanto eram abafados pelo “boom” ensurdecedor (e igualmente idiota) das bombas que eram atiradas ali. Eu, incólume dentro do estabelecimento, fiquei andando de um lado para o outro dentro da gráfica, desesperada, escutando o governo atacando os protagonistas do nosso futuro. Segundo baque.

Saí da loja. OS estudantes já tinham dispersado e apenas a polícia ocupava a rua, caminhando sob gritos da população ao redor que alegavam com força seu repúdio aqueles militares. Segui andando e logo a frente dei de cara com um estudante sendo preso por “obstruir a rua. Repito: um  MENINO foi PRESO por OBSTRUIR A RUA. A cena era composta por um estudante rodeado por cerca de 10 militares, cercados por volta de 10 jornalistas e curiosos com suas câmeras que quase entraram a viatura que levara o rapaz. Me assustei com a situação, na mesma hora pensei na família desse garoto, na (falta de) consciência desses policiais e no absurdo que é o desserviço que a imprensa faz e deixa tudo nas mãos de “amadores”, que transmitem o acontecimento com muito compromisso. Terceiro baque.

Saí do tumulto e segui meu caminho até a universidade em que estudo para entregar o trabalho. Vejam vocês: crianças lutando nas ruas pelo direito de ir a escola e eu indo entregar meu tcc de pós-graduação numa das instituições mais conservadoras de São Paulo. Chegando lá, dei de cara com uma outra realidade. Vocês já pararam pra pensar no quanto esse lugar é uma cidade-mundo? De repente, a 15 minutos de metrô, nada acontecia, ninguém falava sobre manifestações, violência, educação pública. Dei de cara com uma cambada de playboys que estavam preocupados em que balada iam no sábado e se tinham seda para enrolar o beck antes de entrar na aula. A classe média/alta paulistana é de dar nojo, amigos. Acreditem. Quarto baque.

Bom, ao chegar na universidade, descobri que que precisava gravar um cd com o trabalho. Eram 20h e eu tinha 30 minutos para a entrega na secretaria. Eu corri com o computador na mão e a mochila nas costas por três gráficas até conseguir comprar um cd. Meu computador não grava. Corri a universidade inteira procurando alguém que pudesse me emprestar o computador para que gravasse. Consegui, na recepção da coordenação de graduação, um recepcionista nerd que poderia resolver meu problema. Eram 20h25. Gravamos o cd. O professor chegou para assinar a papelada necessária e eu consegui entregar tudo às 20h37. Alívio.

Depois de tudo isso, decidi que merecia tomar uma cerveja. Ter passado pelo manifesto dos meninos mexeu muito comigo e, afinal, eu tinha entregado meu tcc. Eu merecia tomar uma cerveja. Outra realidade: final da Copa do Brasil. Dezenas de homens vestidos de verde tomavam conta da calçada do meu prédio, gritando ensandecidos pela vitória do Palmeiras. Ninguém ali falava de manifestações, de educação pública, de violência policial ou de como a classe média paulistana e sua juventude são um lixo. Bizarro.

No final das contas, tomei minha merecida cerveja e fui dormir.


Ontem eu matei um leão. Matei um leão porque tive que lidar com várias realidades díspares, principalmente da minha, mas das quais eu faço parte e nem me dou conta. Ontem matei um leão porque mesmo encarando tudo isso, consegui fazer o que tinha para fazer, chegar em casa e dormir tranquila.  Mas não em paz. Porque esses pequenos desafios do dia a dia e todo esse absurdo com que temos que lidar, são o que enfraquecem quem mora numa “cidade-mundo”. Mas eu consegui. E eu consigo todos os dias.  

1 de dezembro de 2015

um texto pessimista e aleatório

Ela gosta de ficar sozinha em casa, acender um incenso pra abafar o cheiro do cigarro e ficar olhando pela janela.

Enquanto ela olha pela janela, gosta de contar quantas luzes estão acesas nos prédios vizinhos.

Quando acaba o cigarro, vem o nada. A solidão não é um problema, o que pesa mesmo é o vazio interno, aquele redemoinho que começa pelo nó na garganta e não se sabe onde acaba.

Ela pensa em ligar pra mãe, mas a mãe não tem coração pra aguentar um desabafo tão profundo, mas tão oco; ligar para o pai também não é uma boa opção, seu pai é cético demais e acha uma perda de tempo ficar pensando no que a gente tem por dentro; as amigas andam ocupadas demais com seus amores passageiros e desamores eternos.

Ela olha pro lado, vê o cachorro. Nos últimos tempos, é o abraço dele que tem aquecido esse coração que a cada dia que passa cria mais um cristalzinho de gelo.

"Vou trabalhar", ela pensa. É que a gente vive numa sociedade em que trabalhar - e consequentemente o dinheiro - são a solução para os problemas da vida. e de certa maneira são sim.

mas tenho certeza que a mega sena não ajudaria em nada nesse momento.

Ela ocupa a cabeça. ora faz tcc, ora produz, ora escreve textos filosóficos sobre algum programa de televisão. ela gosta de tecer teorias sobre programas de televisão.  Talvez assistir televisão seja a forma que ela encontra pra observar o comportamento do ser humano, em especial o brasileiro. É, é isso.

Ela gosta de olhar ao redor e prestar atenção em cada pessoa que a cerca: gosta de perceber o jeito que entoa as sílabas, o jeito que mexe as mãos e pra onde os olhos vão na hora que ele fala. Ela gosta de pessoas que sorriem com os olhos. Não tem coisa mais sincera do que sorrir com os olhos. E pra cada ação tem uma explicação.

Ela fuma um beck e escolhe uma música pra ouvir. Ela gosta de letra. Como nos filmes, onde ela presta mais atenção nos diálogos. As palavras são incríveis. É por isso que gosta de cinema brasileiro, música brasileira, porque tem a gente sabe que sentimento cada palavra tem. Chapada, ela viaja na letra das músicas que escuta - Tom Zé é uma fonte inesgotável de palavras em sintonia.

Ela tem um trabalho. Ela tem amigos. Ela tem um cachorro. Mas ela tenta, tenta e não consegue achar a si mesma. De repente, parece que perdeu suas certezas e convicções. Não se sente segura em opinar sobre alguma coisa porque se sente vulnerável demais a qualquer intervenção externa. Ela se sente livre. Nunca na vida sentiu tanta liberdade! Mas não sabe como lidar com isso, o que fazer, pra onde ir. 

De que adianta ser uma mulher bem sucedida, bem resolvida, admirada pelos amigos, família e não ser admirada por si mesma? Ela se sente livre. Livre de amarras, livre de convenções sociais, livre de obrigações. Mas alguma coisa a prende dentro de si mesma. 

Ela pensa, lê a respeito. Lê livro de sociologia. Lê livro de filosofia. Lê livro de religião. Vai no centro espírita tomar um passe. Vai no terreiro conversar com o cabôco. Vai na igreja rezar sozinha.  Nada acontece. Talvez a culpa de ser cética não a permita ser tão desapegada. Na verdade, o desapego assusta, e dói um pouquinho. A gente vive num mundo em que as relações interpessoais são a coisa mais importante do mundo. "Você tem que sempre manter as boas amizades e boas relações. É daqui pra cima!", dizia o pai, tentando orientar o melhor pra filha.  A gente aprende que a família é um laço que você não pode cortar jamais, uma raiz que você tem que cultivar pra poder colher os frutos lá na frente. A gente aprende que os amigos são a família que você escolhe ter,  que são aquelas pessoas que te dão o chão que você pode vir a perder. A gente aprender que namorado, marido tem que ser aquela pessoa que te apoia em tudo, que não te deixa na mão e que essa é uma relação onde todo mundo tem que ceder e que é uma plantinha que a gente tem que regar todo dia, tipo a da família.

Pois eu tenho feito o caminho contrário. 

Tem algum tempo que tenho experimentado a o melhor e o pior da solidão. As pessoas são rasas quando falam em solidão. Ligam diretamente com abandono ou com tristeza. Meu amor, solidão é um estado de espírito. Nunca te falaram que você pode estar no meio de um mar de gente e ainda assim se sentir sozinho? Todo mundo sabe disso. Sei lá, Cazuza deve ter falado algo sobre isso. Ou Clarice  Lispector.

Solidão envolve silêncio. Pensamento. Dúvida. Certeza. Arrependimento. Medo. Alegria. Tristeza. Choro. Gargalhada. Solidão envolve família. Amigos. Namorado. Marido. Cachorro. Solidão envolve o coração. Pulmão. Músculos. Solidão envolve diálogo. Digressão. Regressão. Progressão. 

Tem gente que passa por situações desumanas nesse mundão. Mas se a gente não aproveitar cada momentinho da nossa vida pra pensar um pouco no além, no que isso quer dizer, pra que isso acontece, você me desculpe, mas não faz sentido.

Há algum tempo a vida me disse: vou dar uma mudada aqui e ali pra ver como você se vira, tá bem? Então tá bem!

E a vida, essa sacana, me tirou as certezas que tinha. Me tirou amigos, me tirou família, me tirou namorado. Mas não me tirou à força, deu um jeitinho pra que eu mesma me desfizesse de todas as coisas "valiosas" que cativamos ao longo da nossa caminhada. É um exercício diário, difícil e desafiador. Todo dia me sinto sozinha. Todo dia sinto falta de alguém que não sei quem é.

No início achei que era da família. A gente acha que família é pra sempre e que nossa ligação com nossos pais e irmãos são além dessa vida. Sim, são. Mas se você, seus pais e seus irmãos não souberem lidar com ela, nada adianta. Se ninguém se dispor a abrir a consciência para enxergar o que a vida terrena nos escancara, de nada adianta. E foi assim que entendi que os laços sanguíneos e de família são eternos, mas não são mais importantes do que o que eu tenho para ensinar e aprender com eles. Certo dia, um amigo me disse "a gente tem que matar o nosso pai". Assusta? Assusta. Mas para um pouquinho e pensa no quanto isso é importante. A vida é sua, as escolhas são suas, você não precisa da aprovação de  ninguém. Eu ainda não matei meu pai. Mas já larguei da mão dele.

Depois, achei que eram os amigos a fonte de tamanha dor. Tem uma coisa que a gente sempre escuta e que é verdade: "o tempo mostra quem é nosso amigo e quem não é". Talvez essa tenha sido decepção maior do que descobrir que meus valores destoam do resto da minha família. Amigos te deixam de lado, amigos de trocam pela nova paquera, amigos não são sempre disponíveis a ouvir. amigos nem sempre te dão o melhor conselho. Na verdade, o que aprendi mesmo é que quanto menos conselho você pedir, melhor. É importante saber que apesar de amigos e de toda a afinidade (Afinal, algo os ligou, certo?), as pessoas são diferentes, os pensamentos, os princípios e as atitudes são diferentes. A gente tem que parar de pedir conselho pra amigo esperando que ele diga o que a gente quer ouvir; parar também de pedir conselho pra se auto sabotar e colocar a culpa em outrém quando algo dá errado. E foi aí que aprendi que não existe isso de "amigo de festa" e "amigo de verdade". Todos são amigos de festa. Basta você saber o que quer aprender com isso e o que quer ensinar. Mas para isso, é preciso que ambos estejam dispostos. O problema é que ninguém está.

E aí, finalmente, pensei: "deve ser namorado. Eu preciso de um namorado!". Eu tive um namorado maravilhoso por 6 anos. Não, foram quase 7 anos. O cara impressionantemente me conhecia como eu achei que não fosse possível. Sabia lidar com meus anseios de forma exemplar. Essa foi a unica relação com a qual eu realmente aprendi algo bom. Aprendi que o fim nem sempre é doloroso, que nem toda ruptura carrega algo ruim. Sobretudo, aprendi que o amor acabar não é o fim, que a transformação, a transmutação é a maior dádiva do ser humano consciente. Para sempre vou ser grata a esse cara por ter sido peça fundamental na construção da minha ideia de relacionamento. Mas descobri que nem sempre as pessoas entendem desse jeito. Ou melhor, quase ninguém. Olho para o lado e vejo meus amigos criando problemas onde não precisa ter, alimentando uma relação com um probleminha porque "sem nem um atrito não tem graça". Vejam vocês a que ponto a sociedade maluca chegou. Vejo amigos presos a relacionamentos doentios, nocivos para ambos, porque acham que é melhor estar assim com quem gosta do que estar em paz longe da pessoa. Me desculpem, amigos, eu jamais vou concordar com isso. Recentemente me apaixonei por um fulano. Ele tinha namorada e é claro que no final da história foi com ela que ele ficou. Doeu? Porra, doeu pra caralho. Dói até hoje. Não posso ouvir uma música específica que o olho já enche de lagrima.  E foi aí que aprendi de vez que as pessoas são diferentes. Que não posso esperar de alguém a reação que eu teria. E foi aí, exatamente aí, que percebi que a vida tá fazendo com que eu desapegue das certezas que eu tenho a cada dia que passa.

E eu vou seguindo o caminho contrário. Dói. Mas cada momento é valioso.




3 de novembro de 2015

tempo rei



Ei, você aí na minha frente. Você que sem perceber consegue me tirar o chão assim, em segundos. E na mesma velocidade, parece correr e me devolver a calma que tinha roubado instantes atrás. Você que desperta uma enxurrada de coisa boa dentro de mim que eu nem sabia que tinha mais. Você apareceu assim, de repente. Um grão quase invisível de gente. O tempo é um cara danado. Fez questão de me mostrar que é sua maior capacidade é mudar as coisas. Me fez perceber que eu podia ir bem além do que esperava. Todo esse negócio de ser sozinho te coloca provas que o coração duvida, a cabeça titubeia e os pés parecem andar em círculos. E aí você se fecha feito uma concha, escolhe se privar de viver e só vai ter essa chance quem for curioso o suficiente pra saber o que tem dentro. E tem toda aquela pressão social de se achar alguém que te tire o chão, te faça suspirar e a porra toda.

Não, eu não quero alguém assim. 

O tempo foi meu amigo e me fez o favor de me mostrar que o que importa mesmo é alguém não especial. E você é uma pessoa dessas não especiais. Você não me mexeu comigo no primeiro instante, não existe isso de paixão à primeira vista. Eu fiz questão de dar um passo de cada vez, percebendo cada traço, cada músculo. A cada dia eu olhava uma coisa nova.

Andei pra frente olhando pro lado sem saber o que me esperava. Dei de cara na parede. Mas fui em frente. Escolhi me testar. Escolhi te testar. Passamos no teste. Teu suor escorregou no meu corpo como escorrego em minhas certezas cada vez que te vejo. Como a intimidade que não precisamos criar, que já veio junto. 

Você que não é nada especial e que não me fez suspirar de amor, você que é meu mesmo sendo de outra pessoa, você que não faz ideia, mas conseguiu esticar um pouquinho a cabeça e ver o que tem dentro da concha, ainda que não entenda o que quer ver. Minha vontade é te puxar pelo cabelo e te trazer pra dentro comigo. Eu poderia segurar na mão do mesmo tempo que te trouxe e esperar que ele te leve. Mas eu não quero. É que tudo some quando você tá perto, entende? E eu não quero ver nada, eu quero ver você.

Meu coração virou mar. Às vezes fica calmo, sereno e brando. Outrora toma certa força que não sei da onde vem e transborda pelos poros. E eu tenho medo de mar. E você, você aí na minha frente, você que não é especial, tá no meio desse desbunde, como um maestro que rege a melodia do concerto. E de repente aprendi a nadar. Agora atravesso, chego ao outro lado e te espero como um cachorro espera o dono todo fim do dia. Te espero sem saber como você vai chegar. Não sei se vem inteiro, se vem cansado, sequer sei se você vem.  

Mas se vier, sê meu. Sê meu como já fomos e já somos um do outro, ainda que só dentro da concha.


8 de junho de 2015

carta para alguém não ler

Hoje eu decidi te escrever. Na verdade, hoje eu decidi escrever, e como eu tenho esse problema de falta de coragem de olhar na cara e falar, essa é a melhor oportunidade. Hoje eu vou escrever pra você não ler tudo aquilo que sempre quis te dizer e nunca disse.

Quando te conheci você foi qualquer um. Não reparei na cara, no cabelo, na voz, no sorriso. Se quer te dei boa noite antes de você já vir me pedindo um isqueiro. E como eu odeio gente que pede qualquer coisa. Ignorei sua presença do mesmo jeito que você ignorou a minha. Convivemos por horas e sequer trocamos olhares. Quando, de repente, você apareceu do nada no meio de todo mundo e me tascou um beijo. Ruim, inclusive. Apressado demais. Enfim, que se dane essa parte. Foi tão estranho o jeito que te conheci que não merece tanto parágrafo.

Mas aí você foi embora. E existem duas formas de partida: as que dóem e as que não fazem diferença. E a sua não fez a mínima. O tempo passou, as luzes apagaram e você acabou indo embora também de  mim.

Sumiu.

Sabe, um dia, enquanto eu tomava banho, lembrei de você.  E eu tenho essa coisa estranha de lembrar das pessoas e não lembrar como é o rosto delas. Já aconteceu com você? É desesperador. Você fica caçando as feições na memória como quem rói as unhas até lembrar daquela música que a sua amiga cantou uma vez no carro e você gostou muito. Pois é, acho que desde esse banho eu não esqueci mais de você.

Até que um dia você apareceu. De longe, quase não te reconheci. Mentira. Mesmo de longe eu sabia que era você. E meu coração disparou no mesmo segundo. Coisa de doido, mal lembrava da tua cara e só faltei mijar nas calças quando te vi. Fiquei tão nervosa que tive que pedir pra um amigo te chamar. Ai, como sou moleca! Nos vimos por segundos, eu tava ali conversando com teus amigos, mas cheia, encharcada de saudade. Saudade sei lá do quê, se passamos minutos nos beijando. Aí eu senti que algo foi construído, O quê, eu também não sei. Nos falamos por alguns dias. Eu conheci você mentindo, pra mim, pra outros. Não te levava a sério. Não te levo a sério.

Mas aí você começou a me falar um monte de coisas bonitinhas, dessas que derretem o coração de alguém. E eu te avisei que não se faz isso com o coração de uma canceriana como eu. Claro que acreditei. E foi legal acreditar! Eu tava há tanto tempo oca por dentro que até um punhado de "mentiras sinceras" eram capazes de mexer comigo. E eu acho que são sinceras sim, me desculpem os amigos céticos (ou certos) que me desdizem tudo que você fala. No fundo, alguma coisa minha mexeu contigo também. Só não sei se você entendeu isso ainda. Ou se fingiu muito bem.

E aí você foi embora de novo.
E doeu. Dessa vez doeu.

Mas foi dor pouca. Você passou uns dias morando na minha cabeça de novo, mas logo foi embora. Só que dessa vez você não foi por completo. Eu nem sei qual é teu cheiro, mas ele ficou no meu travesseiro, daquelas vezes que a gente nem transava, mas dormia agarrado a noite inteira. Eu já até tinha me habituado ao barulho do teu ronco- e sabia como você parar sem perceber nem acordar. Sabe, você é uma bagunça que eu gosto, eu gostaria de ajudar a arrumar - e bagunçar um pouquinho de novo. Mas você parece lidar muito bem com o fato de ninguém arrumar sua bagunça.

Mas você foi embora. De novo.
Agora doeu mais.

Olha, no meio de umas das mentiras que você me contou, teve uma que ficou me martelando, que foi quando você disse que a gente parece demais, que tem coisas que eu falo que pareceram ter saído da tua boca. Sei lá como, de alguma forma eu me identifico com a tua loucura, com o teu momento. De alguma forma eu consigo entender. Olhos alheios dizem que é paixão, que é besteira da minha cabeça dar importância a alguém tão egoísta como você. Mas eu não. Sei que eu tô aí em algum cantinho escondido.

Eu não sei onde você tá agora. Acho até que não gostaria mesmo de saber. Se você não tá aqui do meu lado dividindo esse cigarro, é porque tem algum lugar que te sirva mais do que meu colo. Eu só queria te pedir, meu coração, que não desfaça essa sua imagem que criei com tanto carinho dentro de mim. Você me feriu um pouquinho, mas eu ainda tenho um baú de prata feito a luz do luar cheio de amor e saudade cultivadas só pra você. Não erra mais não. Quando te olhei nos olhos, te pedi que não fosse meu, mas que fosse verdadeiro. E você não foi. Não quero você pra mim, quero que o mundo seja seu, que você voe alto, mas que me leve junto, mesmo que num cantinho escondido aí dentro. Você tá guardado em mim numa gaveta que está sempre pronta pra ser aberta pra quando você chegar. Mas quando chegar, se um dia você chegar, sê verdadeiro. Sê inteiro, mesmo que a gente só se beije por minutos de novo.

E quando for embora, beija minha testa e bate a porta da frente. Chega de partir pela porta dos fundos, com a luz apagada, deixando comigo um par de meias verdades e um maço de vazio de vontade de você.

E volta.


17 de janeiro de 2015

as vantagens do presente

há algum tempo fiquei solteira. engraçado o quanto essa frase pode soar desimportante. mas às vezes não. às vezes, não mesmo. vejo outros casais se desfazendo por aí e sempre penso no quão difícil pode ser se desligar de uma pessoa tão próxima e tão boa e que parece ter sido feita pra gente. mas dessa vez foi diferente, talvez por ter sido definitivo- definitivo mesmo, não como nas outras vezes em que  gritamos “dessa vez é pra sempre” a cada discussão. terminamos o namoro (sempre imagino um dramão quando escuto isso) de forma sóbria e justa. justa porque não era o que estava sendo aquela relação perfeita e estável. de repente, resolvi me livrar de tudo que me fazia bem. Pra me aventurar com o desconhecido e, principalmente, me aventurar comigo mesma.

mas o que quero dizer é que as relações, todas elas, são o que me dão força pra viver. eu deveria achar uma profissão que mexesse com isso. deve ser por isso que me interesso tanto por sociologia (a urbana é incrível). o comportamento humano é fascinante! não me canso de dizer isso. E como admiradora e observadora de pessoas e suas relações, não é por acaso que também são meu ponto fraco. nasci com um aliado: meu signo. não, eu não acredito em horóscopo, mas gosto de ser canceriana. segundo sei lá quem, tem  características com as quais me identifico muito e respeito também. também não ligo pra quem acredita, tenho um monte de amigas esotéricas que ligam tudo automaticamente à astrologia e eu na realidade acho isso mó legal. olha só no que a mente da gente pode nos levar a crer! crença é uma parada forte.

Mas o que eu quero dizer mesmo é que, como uma exímia canceriana, eu vivo apaixonada. tô sempre com algum carinha na cabeça, e muitas vezes nem sou recompensada. e na verdade, eu nem ligo muito pra isso. tá, só em alguns casos. mas como fiquei solteira depois de uns bons anos namorando (seis e uns quebrados), tenho redescoberto algumas façanhas da paquera, do dar e não dar certo, da paixão avassaladora que some em horas, da decepção previsível que dói por semanas e depois some junto com a paixão.

por algum tempo fiquei perdida, achando que qualquer cara que conhecesse pudesse ser o meu próximo namorado. imaginava a gente fazendo aquela viagem de carro até a bahia que sempre quis tanto fazer. queria conhecer alguém pra levar pra belém e mostrar todas as pequenas coisas maravilhosas que têm naquela cidade. mas aí depois chegou o tempo em que eu achei que ninguém pudesse ser meu próximo namorado. cada cara que conhecia já pisava na bola (até mesmo sem perceber) logo cedo, e aí eu já enchia o saco. mas aí percebi que tava começando a desacreditar no amor.

hoje eu não sei que fase estou, mas sei que não me encaixo em nenhuma das anteriores. talvez quando eu descobrir conte pra você de novo. mas é que agora eu não sei mesmo, acho que não tô sem opinião sobre esse quesito da minha vida, sabe? pois é.

mas e aí, como uma curiosa canceriana, começo a atentar aos pequenos detalhes dos pequenos momentos. sim, porque quando a gente tá solteiro a gente tem a sorte de ter um montão de pequenos momentos. e aí é legal, porque você aproveita rapidinho o que vai acabar, aí você fica um pouquinho mais feliz, coisa besta, e aí tá pronto pra outra. que pode ser boa ou não, também faz parte. e eu não tô falando de transa não, tô falando de cada momentinho mesmo. é aí que finalmente chego onde queria chegar. os pequenos detalhes, aqueles que aguçam alguma coisa aqui dentro.

-tenho pensado no quanto gosto de pequenos detalhes. gosto de olhar aquele colar que o cara usava, só porque toda vez que vejo ele numa foto usando aquela coisa meio indígena, lembro que naquela noite eu viajei pra caramba olhando aquele colar. e o quanto ele combinava com o tom da sua pele.

-gosto de quando você vira pro lado direito, porque tem um sinal perto da sua barba e ele é bem bonitinho. também fica perto da sua covinha, que só tem no lado direito, que dá mais charme ao charme que covinhas naturalmente têm.

-às vezes rio sozinha do seu sotaque, que deixa com que algumas palavras saiam muito engraçadas da sua boca. e você ri enquanto fala! tem coisa mais apaixonante do que gente que ri enquanto fala? tem não!

-você é um pouco mais alto que eu, né não? acho que é sim, porque lembro de gostar da sua altura. eu não gosto de caras muito altos, mas também acho estranho pegar um cara do meu tamanho, sei lá, coisa de doido. mas eu lembro que você tem uma altura perfeita. sei disso porque quando eu te abraçava rapidinho (naqueles inusitados encontros no metrô) meu nariz ficava na direção do seu pescoço e eu sentia o seu perfume meio amadeirado.

-e várias outras coisas. tipo a cara que você faz quando dança. acha que tá arrasando, mas tá péssimo. tá sempre péssimo, você é desengonçado dançando. mas é legal ver você curtindo um som, e aí dá vontade de dançar junto.

e aí, quando lembro dessas coisas, penso no que é meu que pode ter ficado em alguém, como o de cada pessoa que passa pela minha vida fica. pode ser presunção achar que deixo algo na vida de todas as pessoas que me envolvo de alguma forma. mas também é pessimismo demais consigo achar que não. então, penso no quantos pequenas paixões como essas ainda me restam ter e no quantos grandes momentinhos como esses tenho de viver e proporcionar a pessoas legais por aí.

um viva aos pequenos grandes momentos, às grande pequenas paixões e à vida.

eu provavelmente não vou ler esse texto nunca mais, então, não levem a sério. é só uma conversa comigo mesma.

20 de maio de 2013

olhos nos olhos

Desde que fiquei desempregada, as coisas mudaram muito pra mim. Hoje completa um ano que não sou contratada em lugar nenhum. E o último que saí, fui demitida. Duas coisas muito ruins pra quem gosta de uma correria básica. Sou uma pessoa muito agitada, que gosta de estar nos lugares, fazendo coisas, então, desde que saí do meu último emprego, passei por todas as fases que uma pessoa pode passar. Da pior a melhor. Quer dizer, é claro que tem coisas muito piores, gente que fica anos em anos sem fazer nada, entra em depressões sem fim, etc. Deus queira que isso nunca, nunquinha aconteça comigo, sério.

Mas o que queria compartilhar aqui foram as coisas difíceis pelas quais passei e escolhi passar. E também gostaria de falar das boas, essas sim, sem comparação com qualquer outra vitória na vida. Se alguém realmente lê isso aqui, acredite: não há vitória maior do que a vitória pessoal, aquela que acontece dentro da gente e que só a gente sente. Sei que ainda me faltam muitas quedas na vida, mas hoje, olho com orgulho para a pessoa que fui há um ano atrás. Olho de alguns degraus acima. E isso, minha gente, não tem preço.

Deixemos de enrolação e vamos ao grande drama. Voltei de viagem e me deparei com uma realidade que até então não conhecia: o desemprego, a falta de dinheiro, a falta do que fazer. No início as coisas são bem legais, você acompanha todos os programas da globo, assiste a todas as suas séries favoritas e sai com os amigos todo dia. Depois de (pouco) tempo, essas três únicas coisas que você tem pra fazer, te deixam fora do eixo. Eu comecei a ver programas demais, ver séries demais, comer demais, dormir demais, sair demais com os amigos. Ter amigos demais. Esse foi um erro do qual não me perdôo.

As festas ficam mais legais porque significam toda essa bagunça que fui, aos poucos, construindo, reunida. Música alta, amigos bêbados, gente maluca, alegria e..mais nada. Comecei a ficar louca. Tudo aquilo começou a me assustar. Era como se eu visse meus próprios amigos vestidos como monstros, me puxando a cada oportunidade mais pro fundo do mar. E eu não sei nadar. Quando se olha pro lado e só vê a silhueta das pessoas (digo, elas estão lá, mas não estão de verdade), você se desespera e corre pra quem você não queria, mas devia: a família. Pedi ajuda pro meu pai, já magra e com olhos fundos e inchados de tanto chorar. Meu pai é uma figura muito estranha em minha vida. Poderia resumir ele em três palavras: Não; Medo; Tudo. Pois o cara envolto por uma armadura infinita, se despiu, me olhou nos olhos e me abrigou. Me deu ajuda, me deu colo, me deu uma mão, me deu um abraço. E me olhou com respeito, como sempre o fez. Meu pai sempre me respeitou e me admirou muito. E essas duas coisas foram o que salvou a nossa relação. Nos admiramos demais.

Olhando esse texto, é como se eu fosse uma drogada que vendeu tudo pra suprir o vício. Quando na verdade, todo esse tormento aconteceu dentro de mim. Eu havia me tornado  minha pior inimiga. Não tinha mais meu próprio colo, meu próprio aconchego. Eu não me reconhecia, não me admirava como meu pai fazia.

Comecei a fazer tratamento psicológico.

Quem puder, eu recomendo. Não vá pra resolver uma pendência (quer dizer, vá, mas não só por isso), nem pra procurar respostas que você não consegue se dar. No fundo, o que a Psicóloga faz é te dar um espelho. Aos poucos você vai se achando, se entendendo, se compreendendo, se aceitando, respeitando seus limites internos e externos.

Passo a passo, as coisas foram mudando de rumo. Meu tom de voz em poucas sessões. Eu gesticulo menos. Rio mais. Dou gargalhadas!

Hoje, ainda choro. E choro muito. Muitos dos meus maiores medos não foram enfrentados, e nem quero que isso aconteça ainda. Mas aprendi uma coisa muito, mas muito importante: como lidar comigo mesma. Eu tinha pavor de ficar sozinha, ouvia coisas, via pessoas, sentia calafrios. Agora não há coisa melhor do mundo do que ficar aqui, no meu cantinho ouvindo meu silêncio e conversando comigo mesma. Há quem diga que isso sim, é estar no fundo do poço. Pois quem diz isso é um tremendo burro. Burro por não enxergar que é dentro de nossas minúcias que tá o que a gente realmente quer mostrar pro mundo. Não nos apeguemos a um grupo de amigos que são unidos o suficiente pra formar uma família (ou quase isso). No fim das contas a gente entende a REAL diferença entre melhores amigos e família.

Ainda fico triste. Quase todo dia me dá vontade de chorar, de xingar, de quebrar tudo, de pegar uma mudinha de roupa e sumir por alguns dias. Só que antes eu faria isso com alguns amigos, com outro propósito. Hoje, se tivesse coragem de cometer tamanha loucura, seria sozinha. Porque eu aprendi a me curtir mais do que qualquer outra pessoa.

E é daqui de cima, de poucos, mas bons degraus acima de onde eu estava há um ano atrás, que consigo olhar adiante e ver um pouquinho além. Não tenho medo de cair de onde estou. Tenho um verdadeiro pavor de regredir tudo que consegui galgar sozinha. É o que mais me amedronta. Mas tenho certeza que se um dia eu fraquejar outra vez, serei muito mais honesta comigo mesma.

Nesse caminho curto, devo meus aprendizados ao meu pai, por ser o melhor anti herói do universo; à minha mãe, por me mostrar que eu jamais poderei contar com ela; aos meus amigos, que me decepcionaram constantemente, sem isso eu não teria olhos pra ver como a vida é de verdade; a mim mesma, que levei tudo isso na cara sem surtar, sem me matar, sem perder a cabeça.



1 de outubro de 2008

o todo sem a parte não é todo

E cada fiapo daquela barba quase sempre malfeita tinha um efeito diferente, despertava um sentimento, um arrepio diferente, quando todos eram carinhosamente roçados sobre qualquer parte de meu corpo. Lembro-me perfeitamente de cada caracol formado pelos cachos daquele cabelo onde era de meu costume e satisfação entrelaçar meus dedos, fazendo, assim, meu moço adormecer sobre meu colo, com o carinho que minhas falanges cheias de amor o proporcionavam, junto com um - e apenas um - dos arrepios que sua barba quase sempre malfeita provocavam em meus pêlos.
Também não citar as gordas gotas de suor que saiam dos saliente poros em suas mãos encontrados. Nunca entendi o porquê de suas glândulas sudoríparas não terem um autocontrole, sempre me deixando suada junto com elas, já que na maior parte do tempo, do nosso tempo, estávamos com nossas mãos unificadas ou, pelo menos, acariciando um ao outro. Ah, aquelas mãos que meu moço tinha! Mãos horrorosas, cheias de dedos tortos, unhas ruídas, peles comidas. Sim, essas mãos que elevavam-me a trezentos mil pés de altitude, faziam-me sentir a brandura das nuvens sob meus pés, enxergar as verdadeiras cores que compõem o céu; com o se toque conseguia ir a Mundos roxos e verdes, minhas cores favoritas, podia ver o variegado leque de tons que essas lindas cores tinham, e que só ele sabia me mostrar. Tenho certeza que aquelas mãos, se humanas, seriam um daqueles homens ditos como perfeitos, capazes de levar qualquer mulher ao céu e ao inferno de uma só vez. O prazer que sentia toda vez que aquelas mãos feias e suadas entravam em contato com alguma parte de meu corpo sempre foi algo inexplicável, sempre diferente, e cada vez melhor. Talvez o amor que me fazia viver pr'aquele homem me encatava a ponto de fazer-me apaixonada por cada célula que o compunha.
O cheiro inconfundível também era um artifício do qual ele- e só ele era farto, que me desmanchava, me derretia, fazia de mim uma poça d'água. Não importava o perfume que meu moço usara, era dele o cheiro que imprengnava em minha pele, minha roupa, minha boca. Ah, sensação marvilhosa era a que tomava conta de mim quando ia dormir com aquele cheiro, com o cheiro do meu amor. Alimentava meu coração, também, o nosso cheiro, o cheiro do nosso amor. Era visível o deleite que nosso amor, talvez pelo cheiro que exalava, despertava nas pessoas nas ruas, que costumavam nos olhar com um ar apaixonado. Uma vez disseram-me que nosso amor era admirável e contagiante. Vai ver era isso mesmo, conseguíamos contagiar ate os infelizes alastrando e distribuindo gotas e pedaços dessa imensidão crescente que era o amor que sentíamos um pelo outro.
E ainda não falei do sorriso, e que belo sorriso aquele meu moço tinha! Era um sorriso amarelado perfeito, seus dentes, que pareciam terem sido desenhados todos separadamente, juntos naquela boca bonita e macia, formavam um sorriso peculiar. Também me via liquefeita toda vez que ele sorria pra mim, toda vez quesoltava aquela risada gostosa, aquela gargalhada prazerosa, uma vez que de mim saía algum som ou ruído que pudesse conter qualquer graça.
Uma vez li num livro a seguinte pergunta: "Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?" e lembrei-me das pernas de alicate que meu moço tinha. Rio sozinha delas até hoje, ao me vir à cabeça a imagem de seu andar torto, penso, similar ao de um boneco, daqueles que possuem a perna dura que os impossibilita de cumprir a dobradura o que o andar nos exige. Até isso era apaixonante, até o jeito com que eu achava ridículo e morria de vergonha quando andava em sua presença. Ficava fascinada com a facilidade com que seus defeitos conseguiam se transformar em qualidades naquele meu moço. Tudo nele era bonito.
E tudo isso, toda essa parte que compunha o todo era um dos alicerces que construíam e aumentavam minuciosamente o nosso amor; era o que me dava vida, o que alimentava minh'alma, o que me motivava a persistir naquela estressante rotina que tomava conta de meus dias, os tornando repletos de cansaço e que, só um beijo, um abraço, um olhar ou um sorriso, daqueles nossos, eram capazes de tirar de mim. Até que um dia não existia mais a parte sem um todo nem o todo sem a parte. E como meu moço fez com sua barba quase sempre mal feita, de amor, enfim, me desfiz.