19 de junho de 2017

carta desesperada ao meu pai

te escrevo porque não sei mais pra onde escoar meus pensamentos. não choro, tenho um problema sério de não conseguir ficar triste o suficiente pra derrubar o sentimento em lágrimas. você me ensinou a ser forte, e pessoas fortes não choram, extravasam de uma outra forma. às vezes pedalo 30, 40 quilômetros na esperança de que toda a tensão que tá dentro de mim fique pra trás junto ao asfalto que percorro. é engraçado, porque começo pedalando com muita força, como se tivesse mesmo botando tudo pra fora, e no final do dia já estou mais leve e meus movimentos seguem como asas e eu me sinto flutuar pelas ruas.

mas o que me traz aqui é o que resta quando volto pra casa depois de horas em cima da bicicleta. a vida da gente é muito maluca. tenho entendido a vida como um rio de correnteza forte: corre pelo rio e entra com sabedoria e liberdade por cada cantinho que possa ocupar pelo caminho. e segue. não fica. nada fica. neste rio eu estou presa a uma bóia (corpo) numa espécie de sobre-vivência tentando me segurar em cada pedra que parece segura. escorrego, pedra nenhuma é suficiente pra força da água. por alguns instantes faço força e fico estável, mas logo depois a força que mora nágua me leva com ela. me obrigada a soltar. entende? isso é o que eu sinto da vida. estou constantemente tendo que soltar todas as pedras que tento segurar.

meus sonhos mudam de forma a todo instante. meus planos se desfazem como um punhado de areia se esvaindo entre meus dedos. a liberdade que tenho não tem fim, percebe? não olho pro passado e não consigo prospectar o futuro, porque cada passo que eu dou é refutado pelo rio. o que me resta é viver o agora e aproveitar o que me acontece dia após dia, sem pensar adiante ou no que me ocorreu.

o sentimento é lindo, agradeço por cada experiência que me vem e me preparo para a próxima, e aí se encerra minha participação ativa nessa vida.

entretanto, olho para o lado e vejo meus amigos na mesma situação que me encontro. cada um com seus sonhos desmoronando, se transformando. nada é uma perda. tudo é aprendizado. a diferença é que cada um tem algo que o fortalece: filho, dinheiro ou namorado (a). eu tenho duas armas comigo: minha liberdade e meu corpo. com eles consigo ir a qualquer lugar, entendeu? não tenho medo do que pode dar certo nem do que pode dar errado, carrego comigo uma vontade enorme de conquistar coisas que não sei quais são. mas sei que com meu corpo e minha liberdade será possível.

não sei pra onde ir. mas sei que tenho que ir sozinha. espero a vida me dar sinais, mas sigo com medo de não saber enxergá-los ou decodificá-los. sempre fui ativa, fiz as coisas acontecerem pra mim. mas agora eu não sei o que fazer, que rumo seguir, pra onde direcionar minhas energias. sei que quando descobrir, meu caminho será iluminado e cheio de vitórias. eu consigo sentir isso, é o que me dá esperança e garra pra continuar. "quando não souber o que fazer não faça nada". lembra que uma vez você me falou isso? acho que de todas, todas as coisinhas que aprendi contigo, essa é a que eu carrego com mais verdade. não atropelo o tempo, cada coisa acontece quando e como tem que acontecer. isso também é ter fé.

mas tenho medo de fica numa inércia. não falo de dinheiro, carreira. entende do que falo isso é maior? eu falo de existir. de ser feliz. de não se apegar a nada desses costumes, das barreiras que engloba essa nossa criação. fomos criados pra ser gado. nascer, reproduzir, trabalhar, morrer. e eu quero mais que isso. e eu sei que posso ter. eu quase vejo, mas ainda é escuro.

não choro. não me desespero. mas meu coração está angustiado e eu não posso fugir. viajo, faço tatuagens, corto cabelo, trabalho, me reinvento todo dia em busca de entender a cada acontecimento aonde estou indo. mas a vida está me pedindo uma transformação e eu não sei como fazê-la.

18 de junho de 2017

fluxo ou a participação ativa do rio

minha vida é um rio de água forte
Inunda, transforma, leva
ocupa o que puder
lava o que tiver
meu corpo é uma bóia
carregando com pouco cuidado o peso que tenho
mas não me espanto, minha bóia é frágil
a qualquer momento estoura, fura
ainda que estática, é anatômica
se curva diante dos desafios da água
é preciso que eu tenha cuidado com minha bóia
é com ela que consigo acompanhar o movimento deste rio
ora água barrenta, ora cristalina
não me assusto, o rio tem suas fases e curvas
assim como eu e minha bóia
a todo instante vejo pedras
em uma espécie de esperança e desespero
me agarro a algumas delas
estou exausta
não estou preparada pra tanto movimento
meu coração sente vertigem
escorrego,
pedra nenhuma é suficiente para a forca que mora n`água
voltamos a navegar: eu, a bóia, a pedra e o rio
bato em novas pedras que aparecem a frente,
mas meu peso está maior, trago uma comigo
solto,
vejo com saudade e alívio a pedra sumindo rumo ao fundo da água
estou pronta para seguir com meu rio
eu e minha bóia
frágeis, expostas
não há o que eu possa fazer além de seguir o fluxo
do rio de água forte
minha vida,
meu corpo,
meu ser,
em constante movimento e transformação.

10 de março de 2017

íntimo

pareço dura
às vezes até sou
mas me emociono com pouco
criança sorrindo
choro de alegria
abraço forte
refrão de música
solos com instrumento de sopro

vento na cara
até parabéns pra você
andar de mão dada
lambida de cachorro
olho no olho
reunião de família
roda de violão
barulho de cachoeira
pôr-do-sol na praia
carinho no nuca

chegadas
mais que despedidas
matar saudade
deitar no colo
cheiro de manhã úmida
pisar na grama

tudo me emociona
enche meus olhos de lágrima
ainda que não escorram
embora eu pareça dura
e às vezes até seja

7 de março de 2017

falso-controle-vizinho



peguei minhas verdades
esmaguei todas com a mão
debaixo das unhas sobraram restos
esfreguei com escova grossa
às vezes procuro com os dentes
pedaços roídos
não servem - mais
cuspo

peguei meus sonhos
anotei num caderno sem pauta
risquei um bocado
sobraram aqueles que não consigo ler
todo dia penso nos rabiscos
invento significados
não anoto mais
rabisco meus próprios sonhos
quando vejo algum legível
derramo água em cima
garatujo

peguei meus desejos
vesti numa roupa púrpura que guardo há anos
sai com eles pra passear
nua
pegamos chuva e desbotamos
a cor dos desejos manchou minha pele molhada
escorrermos pelo ralo da rua de baixo
saneados, tornamo-nos água

bebo meus desejos todos os dias.

5 de março de 2017

visita

entra,
fecha a porta, mas não bate porque assusta o vizinho
ele é bebê e a essa hora da madrugada o sono é raro
escuto todas as noites o choro insone
e o cheiro de café

senta,
encosta tua perna na minha com certa distância
pra que eu sinta tua intenção e teu respeito
se aproxima devagar
deixa eu sentir teu cheiro daqui do outro lado
te desejar em silêncio

acende o cigarro no meu,
qualquer toque atiça minha libido
que agora pulsa em direção aos teus olhos
azuis como o céu de fim de tarde

inventa qualquer mentira que me faça rir
percebe os defeitos do meu rosto
me deixa sem reação quando fala do teu niilismo mentiroso
te desejo cada vez mais

deita,
minha cama é teu ninho agora
passa a mão nos meus cabelos curtos
eu cheiro os teus cabelos enormes
presos numa liga laranja

encosta todo teu corpo no meu
pedaço por pedaço
queixo
tórax
umbigo
pau
coxas
pés
mistura teu suor com o meu
o cheiro do nosso prazer

nina
me adormece com teus dedos compridos
passeando pela minha testa
assopra meus cílios pra ver o movimentos deles com teu vento

fica,
mas só até amanhecer
depois pega tuas roupas
teus traços
teu silêncio
e leva embora
me deixa a lembrança,
a saudade
o desejo
e morre.

1 de março de 2017

recado escrito com batom na parede

Meu bem,

Vem cá, deixa eu secar teu pranto com minha camisa suja de suor
Deita tua cabeça confusa no meu colo quente
Mexer no teu cabelo fazendo pequenos caracóis
Com meus dedos tortos

Acalma teu coração
Escuta a voz da tua respiração
Sente o cheiro do vento que passa pelas tuas narinas
A vida não é nada além disso,
Te prometo

Nada pode ser maior do que você tem por dentro
Seja dor, seja amor
Pega tua grandiosidade e encontra um lugar onde ela caiba
A dor vai te acompanhar onde quer que pises
Teus dias serão cinzentos e chuvosos
E tudo bem
Porque dentro é tudo tão grande que o calor da tua alma vai aquecer até os pequenos caracóis

Senta aqui
Toma um café, mas não muito
O coração acelera sozinho
Conversa comigo, fala das coisas ruins
Mas lembra das coisas boas também

Nada é do jeito que parece
É só um óculos que você usa pra vestir a sua verdade
A solidão
O silêncio
O medo
A vontade gigante de voar sem saber pra onde
O gosto de liberdade
O cheiro do vento que entra pelas narinas
A saudade das mágoas
O amor pelos instantes
Tudo isso é maior que o que há do lado de fora

Olha no espelho
Enxerga teu tamanho
Te abre pro mundo
Compreende teus desejos
Obedece quando quiser
Saiba querer
O beijo tácito
A mão trêmula
O passo intrépido

A vida não quer teu pranto.