10 de março de 2017

íntimo

pareço dura
às vezes até sou
mas me emociono com pouco

criança sorrindo
choro de alegria
abraço forte
refrão de música
solos com instrumento de sopro
vento na cara
até parabéns pra você

andar de mão dada
lambida de cachorro 
olho no olho
reunião de família
roda de violão
barulho de cachoeira
pôr-do-sol na praia
carinho no nuca

chegadas
mais que despedidas
matar saudade
deitar no colo
cheiro de manhã úmida
pisar na grama


tudo me emociona
enche meus olhos de lágrima
ainda que não escorram

embora eu pareça dura
e às vezes até seja

7 de março de 2017

falso-controle-vizinho

peguei minhas verdades
esmaguei todas com a mão
debaixo das unhas sobraram restos
esfreguei com escova grossa
às vezes procuro com os dentes
pedaços roídos
não servem - mais
cuspo
peguei meus sonhos
anotei num caderno sem pauta
risquei um bocado
sobraram aqueles que não consigo ler
todo dia penso nos rabiscos
invento significados
não anoto mais
rabisco meus próprios sonhos
quando vejo algum legível
derramo água em cima
garatujo
peguei meus desejos
vesti numa roupa púrpura que guardo há anos
sai com eles pra passear
nua
pegamos chuva e desbotamos
a cor dos desejos manchou minha pele molhada
escorrermos pelo ralo da rua de baixo
saneados, tornamo-nos água
bebo meus desejos todos os dias.

5 de março de 2017

visita

entra,
fecha a porta, mas não bate porque assusta o vizinho
ele é bebê e a essa hora da madrugada o sono é raro
escuto todas as noites  o choro insone
e o cheiro de café

senta,
encosta tua perna na minha com certa distância
pra que eu sinta tua intenção e teu respeito
se aproxima devagar
deixa eu sentir teu cheiro daqui do outro lado
te desejar em silêncio

acende o cigarro no meu,
qualquer toque atiça minha libido
que agora pulsa em direção aos teus olhos
azuis como o céu de fim de tarde

inventa qualquer mentira que me faça rir
percebe os defeitos do meu rosto
me deixa sem reação quando fala do teu niilismo mentiroso
te desejo cada vez mais

deita,
minha cama é teu ninho agora
passa a mão nos meus cabelos curtos
eu cheiro os teus cabelos enormes
presos numa liga laranja

encosta todo teu corpo no meu
pedaço por pedaço
queixo
tórax
umbigo
pau
coxas
pés
mistura teu suor com o meu
o cheiro do nosso prazer

nina
me adormece com teus dedos compridos
passeando pela minha testa
assopra meus cílios pra ver o movimentos deles com teu vento

fica,
mas só até amanhecer
depois pega tuas roupas
teus traços
teu silêncio
e leva embora

me deixa a lembrança,
a saudade
o desejo

e morre.

1 de março de 2017

recado escrito com batom na parede

Meu bem,
Vem cá, deixa eu secar teu pranto com minha camisa suja de suor
Deita tua cabeça confusa no meu colo quente
Mexer no teu cabelo fazendo pequenos caracóis
Com meus dedos tortos

Acalma teu coração
Escuta a voz da tua respiração
Sente o cheiro do vento que passa pelas tuas narinas
A vida não é nada além disso,
Te prometo

Nada pode ser maior do que você tem por dentro
Seja dor, seja amor
Pega tua grandiosidade e encontra um lugar onde ela caiba

A dor vai te acompanhar onde quer que pises
Teus dias serão cinzentos e chuvosos
E tudo bem
Porque dentro é tudo tão grande que o calor da tua alma vai aquecer até os pequenos caracóis

Senta aqui
Toma um café, mas não muito
O coração acelera sozinho
Conversa comigo, fala das coisas ruins
Mas lembra das coisas boas também
Nada é do jeito que parece
É só um óculos que você usa pra vestir a sua verdade

A solidão
O silêncio
O medo
A vontade gigante de voar sem saber pra onde
O gosto de liberdade
O cheiro do vento que entra pelas narinas
A saudade das mágoas
O amor pelos instantes
Tudo isso é maior que o que há do lado de fora

Olha no espelho
Enxerga teu tamanho
Te abre pro mundo
Compreende teus desejos
Obedece quando quiser
Saiba querer
O beijo tácito
A mão trêmula
O passo intrépido
-->
A vida não quer teu pranto.

26 de setembro de 2016

cacto

meu amor morreu de morte prematura
hoje ando em cordas bambas de histórias que não vivo
tudo que sonhei virou água. e eu dei descarga
mas tudo que vira agua volta um dia
a água não é como o ar, que passa por tudo e vai embora sem a gente ver
a agua tem cheiro. tem gosto. tem cor.
meus sonhos viraram agua e eu posso vê-los
lá no fundo
escuto seu barulho.
os ruídos que sempre fiz por onde quer que fosse
meu corpo presente
minh'alma infinita
essa água é filho meu
tem sangue meu na água que se foi pelo esgoto
respiro o ar que não vejo enquanto não toco a agua que sou eu
meu amor morreu de morte prematura
levou consigo todas as doçuras que ensaiei sentir
por quem nunca conheci
meu amor é como meus sonhos
feito de água
e água não e que nem ar
a água faz barulho. tem gosto. tem cheiro. tem cor.
e volta



9 de setembro de 2016

desdiário de não bordo

Segunda-feira

Hoje tomei decisões que não quis. Falei palavras que não deveriam ter saído, não de mim, não daquele jeito. Atirei pra todos os lados. Despejei palavras de amor em cima de alguém que não compreende; expressei minha raiva por terceiros; me despedi de quem não devia ir embora. a seta é sempre pior na saída. Li isso há pouco tempo em um livro e fixei na memória. Deve ter alguma explicação.

Sou uma pessoa irregular. Não consigo manter um padrão de comportamento. Este texto mesmo não terá um padrão. Será escrito em partes, falando de coisas diferentes. Ou falará da mesma coisa sob visões diferentes. Eu tenho essa coisa de mudar o tempo inteiro de opinião sobre alguns pontos da minha vida que não me deixa escolher um lado só da história e seguir em frente.

Quarta-feira

Tento usar minha instabilidade emocional ao meu favor: me escuto ao máximo, presto atenção nas mensagens que meu insconsciente vai me falando ao logo do dia, ao longo da semana, ao longo da vida, algumas consigo compreender, outras não. Eu preciso ser astuta, pois logo me dou uma rasteira e meu pensamento será outro e só quando este retornar – cerca de alguns dias depois, segundo o costume – é que vou voltar a ver as coisas desta forma. . Às vezes é preciso se deixar ser levada. Às vezes é preciso estar atenta e forte. Cansa. Será que isso é coisa de gente ansiosa? Essa urgência de pensamentos e ações e sentimentos e acontecimentos. Dois dias me parecem uma eternidade. E ao passar dos longos segundos que se arrastam durante o dia, vários pensamentos passam pela minha cabeça vazia. A dor sempre vence. Engraçado. O trágico, o difícil, o triste, o melancólico, o solitário sempre vencem no fim das contas. Só não perdem pro sono. É pra ele aliás que apelo quando a bagunça foge do controle. Controle. Controle. Que mania horrorosa essa minha de querer ter o controle de tudo, saber que não tenho e viver frustrada com isso. Preciso saber identificar meus pensamentos e saber considerá-los em sua devida proporção. Acho que tenho conseguido, apesar de tudo. Talvez eu esteja apenas construindo mais uma armadura, percebe? Mas tudo bem, é assim que eu sei lidar. Eu sou uma pessoa irregular, não consigo manter uma conversa sobre um assunto só, vou fugindo, emendando no outro, como um galho que emenda em outro e em outro; ou como um bicho que conheci há tempo e que me encantou em especial: o carrapixo, uma plantinha que parece um ouriço. E aí, toda vez que você encosta em uma planta ou árvore que tenha carrapixos, você sai coberto por dezenas delas! Impressionante! Como se a nossa roupa fosse de ímã ou velcro. Fiquei curiosa: o que em nós humanos atraía essa criatura? Lá vem ensinamento: ele se prende nas “coisas” pra poder se locomover. Puta que pariu, que lição de vida. O bicho se apega nas coisas pra poder ir pra outros lugares!! Achei perfeito e me identifiquei com a plantinha. Talvez eu seja carente de algumas coisas que não sei o que são, bem que conversei disso com minha terapeuta, tenho um calcanhar de aquiles que nem eu mesma reconheço. E então vivo sentindo falta de algo que não sei o que é e vou me apegando em coisas que passam por mim e que escolho (às vezes de forma errada) pelos mais diversos motivos. Mas a vida tem me ensinado que as coisas vão. Mas eu não quero me acostumar com isso de forma resignada, como lidei com outras coisas da minha vida, como os problemas familiares que tenho. Às vezes me vejo lutando com unhas e dentes com a vida pra defender o que penso e sinto sobre relações e relacionamentos; outras vezes me pego desistindo de tudo que acho mais incrível, dando o braço a torcer mesmo, sabe? Sei lá, se é assim, mais fácil aceitar. Eu só talvez esteja muito cansada, muito ferida, muito sozinha. Não me sinto frágil como estava antes, mas me sinto arredia, amarga com a vida. Sabe gente mau humorada com o mundo? E eu não quero isso. Eu não posso deixar que o pessimismo tome conta. escrevi isso na minha parede pra sempre lembrar de ver a vida com bons olhos. Não posso deixar que meu desespero interno atrapalhe minhas relações externas. E aí que me excluo do resto. Talvez eu não esteja pronta pra relações, nenhum tipo delas. Tenho calos em todos os pés que plantei. Levei tiros por todos os lados. Sobrevivi a todos. O único tiro que nã levei até hoje foi a morte, sinto arrepios só de pensar nisso. Nem a maternidade. Tenho um lado espiritual muito forte que não me deixa deixar de crer em deus. Em Deuses. Em algo. E tenho certeza de que esses dois tiros, o da maternidade e o da morte, a vida só vai me dar na hora certa. Não tenho dúvidas: as duas coisas, a que mais desejo e a que mais temo só me virão quando eu estiver pronta para recebê-las.

Sei que escrevo muitos talvez, mas passo agora por um processo exaustivamente confuso de reconhecimento que não me dá chance de ter certeza alguma. Auto- conhecimento dói e custa caro. Hoje, às oito horas de uma quarta feira, sinto pena de mim mesma. Sozinha. Em silêncio. Ninguém liga. Ninguém manda mensagem. Tive que sair, buscar por vários amigos para almoçarem comigo, porque eu não gosto de comer sozinha. Consegui. De novo me sinto desagradável. Meus amigos não devem gostar de estar perto de mim. O cara que gosto já ama outra mulher. Tudo bem que não é o cara que eu gosto, mas é o cara que eu queria poder gostar que já tem toda uma vida que eu queria ter. Minhas amigas e amigos seguem suas vidas amorosas da forma mais intensa e caótica que chega a me fazer inveja. Me sinto suja por falar de inveja. Não sei se é esse o sentimento. Não pode ser. Eu não quero que seja. Não estou empregada, levei um calote de um político. Vi na cara como é que uma pessoa filha da puta age com você. Ainda não me caiu a ficha direito, sinto vergonha de falar pros amigos que me perguntam como estão as coisas na campanha. Mas sinto nojo dele. Sinto raiva. Vi meu ex namorado, aquele que queria ficar sozinho porque não estava pronto pra se relacionar, com outra. Passou do meu lado sem olhar na minha cara. Duas vezes.

O que eu sou? O que eu represento pras pessoas que não querem nada meu? Que aprendem comigo, que sabem o quanto eu sou maravilhosa, mas não me querem? O que resta de mim depois dessas pessoas? O auto conhecimento dói.

Preciso mudar. Mudar o quê?  Nada fica.

Eu não quero me contentar com pouco, não quero me colocar em nenhuma situação -e aqui envolvo não só relacionamentos- onde eu não possa estar, entende? onde não possa querer, não possa criar expectativas, não possa almejar. eu vivo me podando. e eu não sou uma pessoa que deve ser podada. Isso tudo porque sou uma pessoa irregular.

Acabei de saber que dá pra fazer chá de carrapicho. Puta merda, que planta maravilhosa.



Tudo doendo e sendo bom ao mesmo tempo.

Sonhei com você e foi tão triste.

Éramos vizinhos. Eu morava numa casa branca com uma amiga, no nosso quintal suspenso haviam rosas vermelhas e muitas outras plantas. Também tinha um banquinho de madeira maciça feito à mão pela minha mãe, onde eu gostava de sentar e fumar um cigarro. Ao meu lado havia você. Você e sua esposa. Moravam numa casa amarela que ficava parede com parde com a minha branquinha. Na sua varanda cercada por um ferro preto com arabescos provençais tinha um vaso de flores rosinhas, parecidas com as que tatutei no ombro. Sonhei com você e foi tão triste. No sonho eu estava, como de costume, fumando um cigarro antes de dormir, me tremendo de frio e balançando os pés no ritmo de alguma música que não lembro qual era. Devia ser Los Hermanos, vi o documentário deles hoje. Olhei pro lado e vi sua mulher. Linda, vestindo apenas uma calcinha e regata brancas. Ela não sentia frio. Logo apareceu você, sem camisa, vestindo uma samba canção desbotada. Você acendeu um cigarro. E você nem fuma! Deviam ter acabado de trepar, todo mundo sabe que não tem coisa melhor do que fumar um cigarro depois de trepar. Fiquei lá. Não fugi de vê-lo, como de costume. Fiquei assistindo vocês conversarem como quem assiste a um pedaço de série já vista, com interesse e desdém ao mesmo tempo. E de repente você me olhou através dela. Nossos olhos se cruzaram rapida e profundamente e você fugiu, como de costume. Sonhei com você e foi tão triste. Acordei assustada e quis logo escrever. Tenho escrito muito esses dias. Tudo que me vem à cabeça vira texto. Vira filme. Vira sonho. Agora me esforço pra lembrar o que sonhei de tão triste na medida em que me esforço também pra lembrar como eram seus olhos e sua voz e seu rosto. Eu esqueci tudo. Como de costume.

7 de abril de 2016

se o caso é chorar

o efêmero não foi feito pra mim.

tudo bem que a gente vive em 2016, as coisas acontecem com uma rapidez quase inacreditável e a fluidez da internet tomou conta dos acontecimentos da vida da gente. os dias correm, você acorda pra ir trabalhar e do nada já tá no trânsito de volta pra casa. ontem tomei banho de ervas para receber o ano que se iniciava e já tô pensando no que vou fazer no natal. tá, tudo bem que o mundo hoje em dia é assim,  mas olha, esse negócio de efemeridade definitivamente não foi feito pra mim.  quer dizer, eu acho. se bem que "definitivamente" e "eu acho" são meio antagônicos. mas que não é?

como boa canceriana - sempre atribuo essa sensibilidade aflorada ao meu signo, até o dia em que compreender de fato o que é isso - tenho uma espécie de dom de caçar caraminholas dentro da cabeça. tudo é motivo: trânsito parado, cigarro no meio do expediente, passeio com cachorro. já vi uns memes na internet e percebi que não é só comigo que isso acontece (ufa!), mas o que importa é essa capacidade maluca que minha mente ansiosa tem de me levar a universos absurdos em questão de segundos. às vezes vou pra frente, às vezes vou pra trás.

--
penso em você todo dia. é sério, todo santo dia você me vem à cabeça em algum momento. sabe, quando eu volto do trabalho, passo por uma rua perto da sua casa. é só perto e eu nem sei onde você mora direito. mas passo de ônibus e fico te procurando, como se fosse possível  te ver andando de volta pra casa numa dessas passagens. como se algo fosse acontecer caso eu te visse. mas eu te procuro. todos os dias. me diz se tem coisa mais idiota do que isso! tem meses que você sumiu e me mandou pastar, mas ainda fico rindo sozinha de memes na internet e penso que você riria junto. queria te mandar um oi, ouvir tua voz, não lembro mais como ela é. achei uma foto sua no meu celular. era a única lembrança que tinha, de quando você cortou o bigode e ficou parecido com o wagner moura em "narcos", lembra? instantes depois me roubaram o telefone. me roubaram a única coisa que me sobrou de você. agora tenho que ficar procurando evidências de você em mim. ainda me resta tame impala, que a gente ouviu junto por uns bons meses. mas nem isso tá adiantando. você tá escorrendo pelo ralo, virou areia na minha mão, o tempo tá te levando. olha, esse negócio de efemeridade definitivamente não foi feito pra mim.
quer dizer, eu acho.

--
me assusto com a quantidade de pensamentos que passeiam pela minha cabeça. de manhã, quero morrer. é certo que os piores desejos me ocorrem pela manhã. o desapego do que deveria ser cuidado, a nostalgia do que não existe, a vontade de viajar e não poder, a saudade da casa que não é mais minha, a ânsia pelo colo que nunca tive. tomo café pra acordar.

de tarde me acalmo. quero sombra. a sobriedade da rotina. a certeza de voltar pra casa, a casa que é minha. o sol caindo deixa o coração bater mais devagar. a música muda. a dor virou felicidade. penso no futuro, esqueço o passado. hora de fazer piada com a vida comum. o clima é ameno e a alma também.

à noite escureço.a euforia do luar toma conta do meu coração. quero sair. beber.canto alto. logo passa. quero deitar. colo de mãe. colo de namorado. colo de amiga. não tem nada mais valioso do que o aconchego do cheiro de ovo frito. a vida dá uma reviravolta. de dento de casa, sinto falta de casa, a casa que não é minha. saudade do que não existiu. ansiedade pelo que não virá. amanhã será um novo dia, um dia melhor. mentira. olha, esse negócio de efemeridade definitivamente não foi feito pra mim.
quer dizer, eu acho.