1 de fevereiro de 2018

larva-migrans

um bicho insolente caminha pelos meus pés
de tantos pés no mundo, justo o meu
escolheu minhas entranhas pra fazer morada
agora tá aqui, caminhando com força pelo que antes era apenas veia

me faz coçar
chorar
espernear
gritar

como se seu caminho pelos meus pés fosse assim, simples
como se conhecesse pra onde tá indo

olho seu trajeto e me pergunto
como pode tanta audácia?
caminhar pelo meu corpo como se já me conhecesse!

e a noite chega
o desespero chega
o calor chega
me coço com faca amolada
corto com metal fino a pele que me aflige

o bicho que me permeia transforma em incômodo o que era veia
não vejo solução
sufoco-o com água gelada
bicho assim teimoso procura temperatura alta
calor de amor, suor de prazer

afogo com o gelo de minha coragem
o pequeno animalzinho que me causa tanta dor
o intruso que não tem rosto me invade
começando pelo pé
sua geografia é maior que a minha
sinto inveja de um parasita
out talvez a parasita seja eu
que por preguiça ou talvez medo
não crie minha própria geografia em outros pés



31 de janeiro de 2018

quase

o sol
e o vento
e o café
e o cigarro

e o caminho
o calçado
a fome

o acalanto
a saudade
o desespero

e o vazio
o exagero
o calor
a febre

a música
os dias
a escolha
a água

e o medo
a planta
o objeto
a sede

o desconexo
a coragem
o cobertor
o pôr-do-sol
o silêncio

e a pele
a distância
o papel
o cheiro

e a cidade
o instrumento
o beijo
 a fé

nada basta.


 

circunfluência

na última noite em que nos vimos
sentamos, os dois, na beira da calçada suja e encostamos os pés na areia
sentimos o vento salgado entrar na boca
e areias se prenderem nos pequenos espaços entre os dentes
mastigamo-nas

o barulho dos carros e as televisões e as vozes
se misturando com o som irregular das ondas
ecoavam por nossos ouvidos dançando de um lado para o outro
nada fica

na última noite em que nos vimos
andamos de mãos dadas chutando pedras soltas
algumas presas nos pequenos espaços entre os dedos do pé
tiramo-nas

o céu escurecido, a lua oscilante entre as nuvens
 o clarão dos postes quentes e amarelos sobre nossas cabeças
iluminavam o caminho que fazíamos sem saber pra onde
nada segue

na última noite em que nos vimos
sentamo-nos frente a frente
olho a olho
toque a toque
teu pêlo fazendo cócecas na minha pele

o silêncio arruinava nossa poesia
a desmedida despedida
a saudade já presente
a ausência já saudosa
o silêncio arruinava nossa esperança
fechamos os olhos
o céu, a lua, as vozes, o mar, os carros, as nuvens, as televisões,
nada é

na última noite em que nos vimos
fechei os olhos pra não te ver partir
e tu foste
porque nada segue
nada fica
nada é






17 de novembro de 2017

análogo

chegaste e me vi girando no mesmo lugar 
como quem espera em festa o sol nascer 
rodopiei em mim e te vi quando parei 
o agora em êxtase

estar junto é fantasia
delírio equidistante
a gente deseja o presente e esquece da ânsia pelo logo
cada respiração dura uma eternidade 
o toque, o cheiro, a risada doce que te permeia 
passeia por mim com a leveza do carinho que minha mão suada toca tua pele quente 
então nós entregamos a poesia do corpo 
a dança universal nos leva por caminhos entre o tesão e o amor

te abraçar as vezes não é suficiente, você disse 
me fez ver que as vezes o que a gente quer mesmo é mais do que estar junto
é estar dentro 
sentir o fluxo do teu coração bater e aos poucos em sincronia com o meu
e então adormecer 
no silêncio negro do beijo insone 

ao tempo, como caetano
peço o prazer legítimo e o movimento preciso
porque pra te viver é preciso parar
o tempo, o mundo
nada me ocorre quando
nos teus braços me encontro em plena liberdade afetiva

e aí você parte 
deixa comigo sua melhor face 
e eu sigo rodando por dentro 
o que posso sentir de melhor
o acalanto do teu abraço suado
a lembrança do primeiro beijo
o toque tímido 
a risada doce que em ti permeia me passeia e me leva além
a saudade brinca 
como quem espera em festa o sol nascer




10 de novembro de 2017

uva com semente


hoje eu acordei de madrugada pra ver o sol nascer. eram quase seis da manhã quando os primeiros rainhos amarelos rasgavam a escuridão da noite e anunciavam que atrás deles, poucos minutos depois, viria a invasão laranja que toma conta do céu quando no meu relógio marcam seis e vinte e três. gosto de assistir a coisas nascendo. gente, bicho, dia, amor, noite, idéia, planta, amizade, chuva, sentimento. se de repente a gente conseguisse prever quando as coisas vão nascer ou morrer talvez eu não tivesse essa coisa. mas o desconhecido é lindo. eu fico aqui querendo me embebedar do que não conheço, querendo ser preenchida pelo que não tem forma. deve ser por isso que eu gosto tanto do vento. abro a boca e deixo um bocado de nada entrar na minha boca e passear entre meus órgãos e virar outra coisa. abro as mãos e deixo o vento fazer coceirinha entre meus dedos e forçar eles pra trás enquanto empurro pra frente só pra contrariar, como se estivéssemos brincando. fecho os olhos e escuto o barulho que faz quando passa pelo meu ouvido e quase fico surda, mas quando os abro os olhos não tem nada. a cor do mundo quando eu abro os olhos depois de meditar é parecida com a cor do céu da minha janela quando o relógio marca quase seis da manhã e eu acordo pra ver o nascer do sol.

18 de junho de 2017

fluxo ou a participação ativa do rio

minha vida é um rio de água forte
Inunda, transforma, leva
ocupa o que puder
lava o que tiver
meu corpo é uma bóia
carregando com pouco cuidado o peso que tenho
mas não me espanto, minha bóia é frágil
a qualquer momento estoura, fura
ainda que estática, é anatômica
se curva diante dos desafios da água
é preciso que eu tenha cuidado com minha bóia
é com ela que consigo acompanhar o movimento deste rio
ora água barrenta, ora cristalina
não me assusto, o rio tem suas fases e curvas
assim como eu e minha bóia
a todo instante vejo pedras
em uma espécie de esperança e desespero
me agarro a algumas delas
estou exausta
não estou preparada pra tanto movimento
meu coração sente vertigem
escorrego,
pedra nenhuma é suficiente para a forca que mora n`água
voltamos a navegar: eu, a bóia, a pedra e o rio
bato em novas pedras que aparecem a frente,
mas meu peso está maior, trago uma comigo
solto,
vejo com saudade e alívio a pedra sumindo rumo ao fundo da água
estou pronta para seguir com meu rio
eu e minha bóia
frágeis, expostas
não há o que eu possa fazer além de seguir o fluxo
do rio de água forte
minha vida,
meu corpo,
meu ser,
em constante movimento e transformação.

10 de março de 2017

íntimo

pareço dura
às vezes até sou
mas me emociono com pouco
criança sorrindo
choro de alegria
abraço forte
refrão de música
solos com instrumento de sopro

vento na cara
até parabéns pra você
andar de mão dada
lambida de cachorro
olho no olho
reunião de família
roda de violão
barulho de cachoeira
pôr-do-sol na praia
carinho no nuca

chegadas
mais que despedidas
matar saudade
deitar no colo
cheiro de manhã úmida
pisar na grama

tudo me emociona
enche meus olhos de lágrima
ainda que não escorram
embora eu pareça dura
e às vezes até seja

7 de março de 2017

falso-controle-vizinho



peguei minhas verdades
esmaguei todas com a mão
debaixo das unhas sobraram restos
esfreguei com escova grossa
às vezes procuro com os dentes
pedaços roídos
não servem - mais
cuspo

peguei meus sonhos
anotei num caderno sem pauta
risquei um bocado
sobraram aqueles que não consigo ler
todo dia penso nos rabiscos
invento significados
não anoto mais
rabisco meus próprios sonhos
quando vejo algum legível
derramo água em cima
garatujo

peguei meus desejos
vesti numa roupa púrpura que guardo há anos
sai com eles pra passear
nua
pegamos chuva e desbotamos
a cor dos desejos manchou minha pele molhada
escorrermos pelo ralo da rua de baixo
saneados, tornamo-nos água

bebo meus desejos todos os dias.